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Blog do Café Expresso



GABRIELLE CONTA CONTOS

GABRIELLE CONTA CONTOS

Capítulo I

 

Acordei com os raios de sol queimando meu rosto. A manhã estava linda e eu muito disposta. Já fazia um bocado de tempo que não me sentia assim. Estava feliz sem nenhum motivo aparente.

Um banho revigorante, um café rápido e um beijo de despedida no marido e nas crianças marcavam o inicio de mais um dia de trabalho.

As secretárias chegavam cedo às  empresas, e na maioria das vezes, Ivan, meu marido, ainda permanecia deitado quando eu saía.

Como empresário, Ivan possuía alguns privilégios. Chegava mais tarde na empresa, ou dava suas ordens de casa.  Além disso era um cara dedicado a mim e aos nossos filhos. Era atencioso! Dava-me presentes valiosos, jóias caras e jantares requintados. Sufocava-me! Não me deixava um minuto sozinha. Queria saber onde andava, e tudo a meu respeito. Presenteava-me com um celular novo, mas sempre encontrava uma maneira de me controlar através dele. “Estava cansada de ser vigiada”! Era esse meu pensamento, enquanto passava meu batom carmim, minha cor favorita.

O trânsito estava lento naquela manhã, mas apesar disto, estava acostumada com esta rotina e havia tempo suficiente para chegar antes de meu chefe na empresa.

O semáforo estava demorando a abrir e então desliguei o carro. Fiquei ali parada olhando para o nada. Mudando a estação de rádio, procurando uma música ou alguma notícia interessante. Foi então que vi, do outro lado da rua, alguém que me chamou a atenção. Ele era alto, esguio, barba serrada. Um tipo qualquer que fugia dos meus padrões de preferências. Talvez este tenha sido o motivo pelo qual eu não conseguia desviar meu olhar. E ele já parecia ter notado! Sentia-me protegida por aquele olhar! Estava sendo cobiçada por um estranho. Era embaraçoso! Num flash de 3 ou 4 segundos o semáforo abriu. Pelo retrovisor ainda conseguia avistá-lo. Continuava a olhar para o carro. Dei um sorrisinho maldoso e segui meu caminho.

O dia correu bem agitado, Sr. Eduardo meu chefe havia confirmado diversas reuniões para o dia seguinte, queria que eu fosse comprar coisas com ele na hora do almoço, e pediu para eu responder muitos e-mails de seus clientes. Voltei voando para casa. As saudades das crianças era grande! Elas passavam o dia entre a escola e os cuidados de Maria nossa empregada. Bastante prestativa, ela cuidava de tudo como uma mãe.

Já Ivan sempre chegava tarde. E eu, como sempre, dormia sozinha. Quanto tempo isso ia durar?

O trânsito outra vez estava confuso naquela manhã. Muita gente nas ruas. Percebi que não havia ônibus nem metrô.  Muitos carros a buzinar. Comecei a observar o rosto daquelas pessoas impacientes... rostos estranhos... Um nem tão estranho. Não acreditei quando o vi novamente. O rapaz estava parado no mesmo lugar! Não pensei em nada naquele momento, estava chateada com Ivan, decidi atravessar a rua e oferecer-lhe uma carona. 

 

Capítulo II

 

Perguntei a ele para onde ia: - Bela Cintra! – respondeu.

Sem muito tempo para pensar apenas apontei a porta com olhar imperativo: - “Entra no carro, estou indo para lá”.

Não acreditei na minha ousadia! E muito menos na resposta rápida que ele deu. Em poucos segundos estava com um estranho dentro do meu carro. Ao colocar o cinto de segurança o perfume cítrico dele se espalhou pelo carro. Olhando para mim, meio sem jeito esperou que eu desse partida no carro para falar alguma coisa.

- Obrigada pela gentileza! Eu estava muito atrasado, não ia chegar a tempo!

Os olhos eram verdes! Brilhavam de maneira doce e discreta.  

Notei que ficou um tanto quanto sem jeito e aproveitei para me apresentar.

Alex era seu nome. Esfregava as mãos como que se tentasse esconder a timidez. Notei os traços fortes, porém delicados nos dedos e no rosto. O cabelo, castanho, tinha um corte moderno e se desalinhava com vento.

- Você trabalha na Bela Cintra? – Arrisquei perguntar.

Quando ia responder seu celular tocou. A voz feminina pergunta se está tudo bem. Ele responde que está chegando e desliga o celular.

- Desculpe! Sim eu trabalho lá sim!

O seu timbre da voz era macio! Parecia que as palavras saiam como notas musicais. Era muito bom ouvi-la. Ficamos calados o resto do percurso. Às vezes o celular dele tocava e ele atendia.

Ao cruzar a Avenida Paulista me pediu para parar o carro.  Estacionei o carro e ele me agradeceu estendendo as mãos. – Obrigada mais uma vez! Veremos-nos de novo?

- É provável que sim, por aí! Bom trabalho!

Fiquei observando-o caminhar pela Avenida Paulista. Sentia-me aliviada agora que ele havia saído de meu carro.

Cheguei à empresa muito animada. Sr. Eduardo estava já em sua mesa, e com seu jeito elétrico me chamou para despachar.

- Anotou Clarice? - O eco da voz do meu chefe entrou nos meus ouvidos como sinal de alerta. Eu não havia prestado atenção numa palavra sequer do que ele havia me dito.

- O que está acontecendo?

Dr. Eduardo era um patrão exemplar. Conhecia minha família e o Ivan. E não admitia que seus funcionários escondessem algo dele. Temia por não poder ajudar. O funcionário que não quisesse compartilhar nem somar resultados ficava pouco tempo trabalhando com ele.

Meu casamento estava por um fio. Porém hoje eu não estava preocupada com o meu futuro matrimonial. Estava intrigada com minha atitude pela manhã. Contei ao Sr. Eduardo e ouvi em troca uma sonora gargalhada.

- Clarice, minha querida! Você é uma boa pessoa! É claro correu um risco trazendo em seu carro um individuo desconhecido. Um homem! Mas boas ações hoje em dia são raridade! Portanto acho que não deve se preocupar com isso. Você já está aqui e sã e salva! Além do mais esse rapaz já deve ter esquecido o que aconteceu. Portanto relaxe um pouco e cuide mais de si! Aproveite mais a vida!

As palavras deles me tranqüilizaram muito! Eu precisava realmente de descanso.

Passei a manhã respondendo e-mails, mas um deles me chamou a atenção, principalmente porque o remetente era meu marido! Ivan nunca falava comigo via e-mail, sempre ocupado e discreto. Era mesmo uma raridade.

“Olá, bom dia! Sigo hoje para Minas Gerais. As obras iniciaram mais cedo e precisam de mim. Vou levar as crianças para ficar com papai e mamãe. Faz tempo que não viajamos para lá. Ligo quando chegar. Um beijo. Ivan”.

Estava solteira, sem filhos, marido, sem horário para chegar a casa. Pensei em ligar para alguma amiga e combinar um happy-hour. Posso ir ao cinema ou fazer compras no shopping. Soltei um sorrisinho maroto, como um grito íntimo de liberdade. Hoje posso fazer o que quiser.

 

Capítulo III

 

Era tarde de sol e apesar de São Paulo ser aquela cidade com tanta gente, com tantos carros, eu ainda conseguia dirigir tranqüila pela Oscar Freire, sem que pudesse me lembrar do caos que todos comentam tanto!

 

Ao adentrar no shopping vi as luzes de Natal e lembrei das crianças. Será que estão bem? Mais tarde ligo para Ivan para saber se as coisas estão em ordem.

 

Caminhar por aqueles corredores, cheio de lojas famosas, roupas da moda, modelos, estilos e pessoas com sacolas de grifes, casais felizes, adolescentes trocando mensagens em seus celulares, me fazia bem... precisava daquilo e foi uma decisão maravilhosa ter saído mais cedo do trabalho.

 

Café era um prazer que eu apreciava. Meu pai quando chegava em casa preparava um café e eu ficava de frente para ele enquanto ajeitava a mesa com xícara e pires, com muita paciência. Era delicado, amoroso. Aquele tempo do café era o nosso momento juntos. Ele sabia que eu o esperava não pelo café, mas para fazer companhia a ele. Ele perguntava sobre o meu dia e falava sobre o dele. Boa parte dos anos não entendia direito em que ele trabalhava. Nem o que significavam as palavras. Mas aos poucos fui entendendo sobre administração como uma formada da área! Ele me ensinava inglês, francês, espanhol. E com isso veio o prazer do café. Quando jovem já eram 2 xícaras na mesa. Eu mesma comprava algumas. O presente de natal dele eram acessórios de café. Cada vez mais requintados. O aroma daquele liquido sorveu meus pensamentos... era como se nada mais importasse naquele momento. O cheiro do grão me levava à mesa da cozinha, e de olhos fechados sentia a falta de meu pai.

 

 - MOÇA SONHADORA! – Aquelas palavras entraram no meu subconsciente! Abri os olhos e de pé na minha frente estava Alex!  Pousei a xícara no pires,  desiquilibrada com a surpresa! Seu perfume misturou-se ao aroma de café! Seus cabelos desalinhados, cobriam o rosto. Enquanto os ajeitava continuou o discurso: “MAS O QUE FAZ AQUI NO SHOPPING  NUMA TARDE DE QUINTA-FEIRA?”.

 

De perto e durante o dia seu rosto me remetia às ruas largas de Florianópolis. Em Sambaqui, numa vila pequena, de pescadores, que pescavam sua própria comida.  Sentou-se e estendeu as 2 mãos, envolvendo as minhas, trêmulas sob a mesa. - FICO FELIZ DE VÊ-LA AQUI! PUXA AQUELE DIA FALAMOS TÃO POUCO! COMO ESTÁ, CLARICE? É ESTE SEU NOME NÃO É?

 

- BEM! – Foi o que consegui dizer. Tinha a impressão de que ele via a  resposta em meu solhos. Uma nuvem de pensamentos misturados à fumaça do café.  TOMA UM CAFÉ COMIGO?

 

O garçom se aproximou e ele pediu 2 xícaras do mesmo café que estava tomando. Como se fosse também o maior conhecedor da arte do café.

Passamos a tarde a conversar sobre isso. Alex era encantador! Analista de sistemas numa das maiores empresas de informática do Brasil, era um executivo que não parecia com nenhum outro que ia ao escritório. Era simpático, alegre e muito leve. No pulso um relógio com ampulheta. Indagado sobre isso, ele riu de canto  e disse: É PARA MARCAR O TEMPO!  Depois de alguns segundos de silêncio ele completou: SOU ANSIOSO DEMAIS. A AMPULHETA É PARA QUE EU RELAXE UM POUCO!  TENHO MELHORADO MUITO DEPOIS QUE COMECEI A FAZER YOGA TAMBÉM!

 

Era impressionante a afinidade natural que tínhamos! Um homem com uma personalidade tão despojada, porém tão seguro e cuidadoso com seu corpo e mente!

 

Foi uma tarde adorável. Ficamos muitas horas a rir na mesa daquele café. A noite foi chegando e o movimento aumentou muito! As nossas gargalhadas foram se misturando ao burburinho das pessoas. Não percebemos a hora passar!

 

Já era mais de oito horas  quando eu decidi tomar a iniciativa de me despedir. REALMENTE VEJO QUE ESTE RELÓGIO ESTÁ LHE AJUDANDO! NÃO VIMOS A HORA PASSAR! TENHO QUE IR!

 

Automaticamente Alex se levantou e puxou minha cadeira. Um gesto de gentileza que está cada vez mais escasso por aqui. Ivan não puxava a cadeira nem a ele mesmo. Era um total desligado!  Foi também um dos melhores abraços dos últimos tempos. Foi caloroso, gentil, e demorado! Deu-me um beijo no  rosto e voltou a me abraçar! Parecia tão grato por aquela tarde!

 

Sumiu nos corredores. Eu ainda fiquei sentada na mesa pensando em minha vida! Ainda sentia a textura da barba por fazer no meu rosto.

 

Por fim voltei para casa.



Continua na semana que vem...

 

 

 

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